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Gênios: na música, e no futebol...

Quando o futebol se entrelaça com a cultura – de qualidade...

06/03/2020 às 03:31

Uma camisa que homenageia a Hacienda tinha de dar sorte. Com ela, o Manchester City conquistou no domingo a terceira Copa da Liga Inglesa consecutiva, e Guardiola faturou o oitavo dos últimos nove títulos nacionais que disputou sob o comando dos Citizens. Na quarta passada, também com o manto que nos remonta a um dos maiores símbolos da cultura jovem no Reino Unido dos anos 80 e início dos 90, os azuis entoaram Blue Moon em pleno Bernabéu numa virada épica pela Champions. Neste fim de semana o United será o adversário, no clássico da cidade que mais une o futebol à – boa – música no mundo. Oasis e Johnny Marr x Stone Roses e Courteeners. Teremos novamente o fardamento da casa noturna que serve como pano de fundo para o excelente 24 hour party people? Happy Mondays, Voodoo Ray... A nostalgia do que não vivemos. E o City, com sua camisa especial para esta temporada, está homenageando isso tudo. 

Como diz meu amigo – e um dos mais competentes jornalistas de cultura do Brasil – Lúcio Ribeiro – também um dos idealizadores do melhor festival de música do nosso país, o Popload, que nomeia o principal site na cobertura do mundo indie que nós temos –, o futebol é pop – até por isso, Lúcio participa com grande elenco do Sonzera FC, um ótimo Podcast que aborda as intermináveis interseções entre os universos da música e da bola. Parafraseando-o, na Inglaterra, o futebol é indie – pelo menos na maioria das vezes –, e em nenhum lugar essa relação é tão profunda, multifacetada, epidêmica; no Brasil, temos Jorge Ben, Skank, entrou outros artistas, na acepção da palavra, que nos brindam com referências ao esporte bretão em suas canções. Mas hoje, em geral, casos assim são exceções por nossas bandas. Justamente por acompanhar futebol, acabo descobrindo o que se passa na mais baixa cultura imaginável que anda tomando o Brasil de assalto: as dancinhas, os pedidos ao marcarem três gols. Não sai nada de bom. Nunca.

Noel Gallagher, que esteve no vestiário do City após o título do último domingo abraçando Guardiola – o encontro de dois gênios –, e cantando Wonderwall com o grupo de jogadores em uníssono, junto ao seu irmão Liam, e ao que poderíamos de chamar de uma “cultura Oasis”, é dos maiores responsáveis por esquentar – e elevar – o nível das relações entre essas nossas duas paixões. Liam, no clipe do seu último single, Once, convidou um dos maiores ídolos do clube que mais odeia para uma aparição memóravel; Cantona rouba a cena atuando no vídeo da bela canção. O ícone francês – não se tem a dimensão, no Brasil, do quão idolatrado ele é em Manchester –, definido pelo Gallagher caçula como o último dos jogadores rockstars, foi lembrado também em linda música do Arctic Monkeys. Quer dizer... Existem dúvidas. Em No.1 Party Anthem, faixa que integra a obra-prima AM – eleita pela NME recentemente como o melhor disco da última década –, Alex Turner canta: “lether jacket collar popped like antenna, never knowing when to stop”. Tenho o disco, e, de fato, de acordo com o encarte, o gênio de Sheffield canta “antenna”, e não Cantona. Mas muitos ainda acham que Turner diz sim o nome do atleta francês, que tinha como uma de suas marcas jogar com a gola levantada – logo, a letra faria sentido.

A cultura ultra do restante da Europa se inspira muito no estilo dos Hooligans ingleses. Nos jogos do PSG, por exemplo, a única parte do estádio que sai de algum marasmo fica atrás de um dos gols. E lá sempre se encontra ao menos uma bandeira do movimento Mod – associado sobretudo ao The Who e ao The Jam (mais especificamente, a Paul Weller, apelidado de Modfather). A banda de Roger Daltrey e Pete Townshend, para muitos, ao aludir à cultura working class inglesa, foi fundamental para a solidificação das botas Dr. Martens. Estas, por sua vez, até hoje são onipresentes nas arquibancadas europeias – e sobretudo inglesas. Assim como Liam, do auge do Britpop até hoje, tem contribuição inimaginável para a proliferação das caríssimas jaquetas Stone Island – e obviamente, da sua própria marca, a Pretty Green –, e nomes como o de Damon Albern, do Blur – Parklife sempre ecoa nas caixas de som de Stamford Bridge um pouco antes de o Chelsea entrar em campo –, e de Miles Kane, mantêm vivo o culto à marca Fred Perry nos estádios.

No Brasil nos acostumamos a associar o futebol à baranguice: na moda, na música... A Inglaterra, com homenagens como a do City a um clube cult dos anos 80/90, nos mostra que não precisa ser assim.  

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