Rômulo Ávila

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Um gigante que resiste a tudo 

17/04/2020 às 10:51

Não lembro, precisamente, da primeira vez que fui ao Mineirão. Meu pai diz ter me levado quando eu tinha cinco anos. Infelizmente, apesar de ter remoído minha cachola, não guardo nenhuma lembrança desse dia. Mas o certo é que o velho gigante está presente na minha vida desde que me entendo por gente. Nas acirradas peladas jogadas na íngreme Rua Itaí, no bairro Santa Efigênia, zona leste de Belo Horizonte, eu sempre ‘entrava em campo’ sonhando em um dia ir ao estádio. E acredito que também era assim com meus amigos.

A primeira lembrança que tenho de ir ao Mineirão é de 1987 (quatro anos após meu pai ter me levado), em uma partida da Copa União. Quando cheguei ao estádio me assustei com a imensidão daquele gigante. Era, sem nenhuma dúvida, muito maior do que parecia ser pela TV preta e branca que tinha na minha casa. Mas o que mais me impressionou foi a subida das escadas. Queria chegar ao topo o mais rápido possível, para ver o que me esperava e sai correndo na frente do meu pai. A sensação e o impacto ao presenciar aquele imenso tapete verde foram simplesmente indescritíveis.

O mais engraçado de tudo é que essa mesma sensação me acompanhou em todos os jogos que assisti no Mineirão. Subir as escadarias e ver repetidas vezes aquele imenso gramado sempre me deixava embasbacado, como se nunca tivesse deixado de ser uma criança.

O certo é que o Mineirão teve papel fundamental na minha vida. Foi por sempre sonhar em um dia poder jogar lá que me aventurei no mundo da bola e acabei me tornando jogador. Considero-me um privilegiado. Em 1998, tive a honra de jogar no Mineirão. Na época, defendia a equipe júnior do Villa Nova e enfrentamos o Atlético, na partida preliminar do clássico entre Atlético x Cruzeiro, primeiro confronto do estadual daquele ano.

Perdemos por 2 a 0. No jogo principal, a Raposa venceu o Atlético por 3 a 2, com três gols relâmpagos de Fábio Júnior. O zagueiro Edgar e o meia Lincoln descontaram para o Galo. Mas o que ficou na minha memória naquele 7 de junho foi mesmo ver o gigante de concreto e a grama verde. De dentro das quatro linhas, ele é ainda mais imponente, intransponível e maravilhoso.

Anos mais tarde, quando já cursava jornalismo, voltei ao gramado inúmeras vezes, para trabalhar. Tive a oportunidade de ouvir, de ‘dentro do campo’,  o hino Nacional, quando Brasil e Argentina se enfrentaram pelas eliminatórias da Copa de 2006. Ronaldinho Dentuço marcou os três gols da vitória da seleção canarinho. Mas nada se compara à emoção de ter jogado lá.

Todas essas lembranças reacendem na minha memória nesses dias sem futebol. É misto de saudade e de vontade de reviver tudo novamente. O bom disso é que o coronavírus não apaga nossa memória. 

Tenho certeza que o Mineirão marcou e marcará a vida de muitas pessoas. Cada um com a sua história, seja a lembrança de um jogo especial, de um gol de placa, de derrota amarga ou de uma vitória suada, conquistada depois dos 50 minutos do segundo tempo.

Para o bem do futebol, o Mineirão do Zé, do fulano, do beltrano, de Piazza, do Rei, de Éder Aleixo, de João Leite, de Luizinho, de Tostão, de Dadá Maravilha, de Raul, de Dirceu Lopes, de Alex, de Marques, de Ronaldinho Gaúcho, do mecânico, do engenheiro, do padeiro, da camareira, do médico, do pedreiro e de todos os apaixonados por ele, como eu, continuará marcando a vida de muitas crianças, jovens adultos e idosos. Isso essa pandemia não vai nos tirar.

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